A inteligência artificial começa a ganhar espaço nos conselhos de administração das empresas brasileiras, mas sua adoção ainda exige avanços em governança, capacitação e segurança da informação. Esse é um dos principais resultados da pesquisa “Inteligência Artificial, Governança e Ética nos Conselhos de Administração das Empresas Brasileiras”, apresentada nesta quinta-feira (22), na sede do IBGC, em São Paulo.
Na abertura do evento, Luiz Martha, diretor de Conhecimento e Impacto do IBGC, destacou a importância de compreender os impactos da tecnologia sobre o funcionamento e o desempenho dos conselhos, especialmente em relação às implicações éticas. Embora a IA facilite o acesso e o processamento de informações, o julgamento humano continua essencial para avaliar os dados e orientar as decisões.
Adoção em curso, governança em construção
Segundo a pesquisa, 39% dos conselheiros participantes afirmaram que seus conselhos já utilizam IA, enquanto 61% disseram que não utilizam a tecnologia nos conselhos em que atuam ou haviam atuado nos últimos dois anos. Entre os respondentes, 70,6% perceberam impacto positivo da tecnologia, associado à melhora na qualidade das decisões.
O uso atual está concentrado em atividades analíticas e operacionais, como elaboração de resumos e atas, preparação para reuniões e revisão de contratos. O potencial estratégico, porém, vai além da eficiência: a tecnologia pode liberar tempo para discussões estratégicas, ampliar análises e ajudar os conselheiros a formular perguntas mais relevantes.
Entre as principais barreiras à adoção estão a ausência de diretrizes, a falta de conhecimento técnico e a baixa prioridade estratégica. Também preocupam os riscos relacionados à confidencialidade, à segurança dos dados, às informações imprecisas e aos vieses algorítmicos.
Lígia Maura Costa, diretora do FGVethics e professora titular da FGV EAESP, ressaltou que os conselheiros precisam saber questionar as respostas geradas pela IA, identificar erros e preservar a autonomia de julgamento. Segundo ela, os participantes da pesquisa demonstraram interesse em discutir o tema, mas nem sempre encontram espaços para compartilhar dúvidas e experiências.
Outro risco apontado é o groupthink: o uso das mesmas ferramentas pode levar a respostas semelhantes e comprometer a diversidade de perspectivas necessária às deliberações. Uma das frases registradas entre os respondentes resume essa preocupação: “A IA precisa ter voz, mas não voto”.
O papel dos conselhos na adoção responsável
Cátia Tokoro, conselheira de administração do IBGC e especialista em estratégia, inovação e transformação digital, destacou três dimensões de uso da IA: individualmente pelos profissionais, nas áreas de governança e conformidade e nas operações da companhia. Cabe ao conselho orientar esse processo e estimular a reflexão sobre as possibilidades e os limites da tecnologia.
Fernando Alberto, vice-presidente do conselho de administração do Grupo Fleury e professor da FGV EAESP, ressaltou a importância de estabelecer diretrizes institucionais claras, inclusive para orientar a escolha das ferramentas. Esse trabalho pode envolver comitês como os de Auditoria e Riscos e de Estratégia.
A definição de regras também ajuda a diferenciar a experimentação individual do uso institucional e a reduzir riscos de exposição de informações confidenciais. Como sintetizou Cátia: “Para a gente acelerar, precisamos ter bons freios. E esses freios, no caso da nossa discussão, vêm da boa governança”.
Capacitação contínua e liderança ativa
O letramento em IA foi um dos pontos centrais do encontro. Os participantes defenderam treinamentos específicos para conselheiros, com casos reais ou simulados, atividades práticas e oportunidades de troca de experiências. A capacitação deve envolver toda a organização, da alta liderança aos profissionais que estão ingressando no mercado de trabalho.
Para Fernando, a discussão precisa ser liderada pelo conselho, com papel especialmente importante de seu presidente. Os conselheiros devem compreender as limitações da tecnologia, avaliar a confiabilidade das respostas e entender como a IA pode ser implementada de forma adequada em suas organizações.
Os resultados apontam para uma agenda que reúne responsabilidade humana, proteção de dados, capacidade crítica, validação das informações e formação contínua. Mais do que disponibilizar ferramentas, o desafio é preparar as organizações para utilizá-las de maneira consciente, segura e alinhada aos deveres fiduciários.
A IA já faz parte dessa transformação. Cabe aos conselhos liderar sua incorporação, aproveitando os benefícios da tecnologia sem abrir mão da diversidade de pensamento, da integridade e da responsabilidade humana que sustentam a boa governança corporativa.
Confira a pesquisa na íntegra no Portal do Conhecimento
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