O futebol brasileiro merece (sim) melhor governança corporativa

Conectar fundamentos e conteúdo da governança ao mundo dos clubes de futebol foi a tônica de reflexão da 7ª edição do IBGC Dialoga Futebol

  • 02/08/2024
  • Membros do grupo IBGC Dialoga Futebol
  • Artigo

A indústria do futebol move milhões de pessoas, paixões e recursos e tem potencial de crescimento extraordinário das receitas atuais. Percebemos, ainda, movimento crescente e consistente em cobrar do mundo do futebol atitudes e resultados melhores - para muito além dos resultados esportivos, por sinal. Espera-se que o futebol aproveite o seu imenso potencial de transformação de pessoas e comunidades, contribuindo para uma sociedade melhor.

Conectar os fundamentos e conteúdos da governança corporativa ao mundo dos Clubes de Futebol foi a tônica da reflexão realizada pelos participantes do primeiro. Dialoga Futebol 2024, conciliando conceitos e práticas.

O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa destaca a interdependência das organizações com todas as partes relacionadas - e foi oportuno entender melhor o contexto, as estruturas e instrumentos de governança que podem ser ainda mais compreendidos e utilizados por administradores do futebol na condução de suas organizações.

“Entender o contexto, para escrever seu próprio texto”, foi a provocação feita ao grupo, para dialogar sobre o papel das federações no suporte aos clubes de menor porte, ao futebol amador, entre outras questões - à oportunidade real das Ligas do Futebol como alavancas de crescimento responsável de receitas (e de controle de despesas) e visão coletiva para desenvolvimento do ecossistema do futebol.

A experiência das sociedades anônimas do futebol no Brasil também já nos permite constatar que podemos avançar para esta alternativa como estratégia de crescimento, financiamento do crescimento e resultados - e não apenas como remédio para dívidas. Modelos mais profissionais e de “potenciais investidores procurando clubes com governança”, com transparência e processos decisórios profissionais, são uma realidade a ser perenizada por estas terras brasileiras. O modelo das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) pode, sim, contribuir para que melhores práticas de governança aconteçam - pela clareza de identificar donos e suas participações, mas também os clubes associativos podem e devem implementá-las com sucesso. E muitos já estão assim procedendo.

Lembrando, ainda, que estas melhores práticas estão sendo fortemente consideradas por profissionais de marketing em suas decisões de patrocínio aos clubes de futebol, buscando potencializar o retorno sobre os seus investimentos e o alinhamento com valores sociais e ambientais contemporâneos.

O benchmarking internacional mostra os caminhos de ligas fortes e de abertura de capital - caminhos que demandam maior musculatura de estrutura, torcida e receitas - e um forte entendimento da cultura e do propósito dos clubes de futebol - para que os investidores saibam o que esperar das empresas em que investem. Obrigações de relatos periódicos, distribuição de resultados e disciplina de investimentos e também resultados esportivos - podem gerar expectativas diferentes em relação ao perfil de um investidor convencional. Muito a se aprender sobre esta possibilidade.

Os relatórios e sites de clubes também mereceram um olhar atento: identificar nestes instrumentos os princípios da governança, bem como verificar a qualidade das informações prestadas e a valorização e comunicação com os vários públicos relevantes, na forma e abertura adequadas.

Entendendo o contexto, cabe a cada clube - independente do modelo societário - escrever seu próprio texto e desenhar o percurso de passar a contar com políticas de alçada, códigos de conduta ética, canais de denúncia, mandatos para conselheiros, entre outras possibilidades. Sem falar no esforço permanente de capacitar seus agentes de governança, para que tenhamos processos de decisão robustos e ambientes éticos.

A tarefa de contar com conselheiros bem formados e preparados, que contribuam para colegiados saudáveis e produtivos não é trivial - mas vale o esforço. Conselheiros que enxerguem todo o ecossistema do futebol e suas inúmeras possibilidades, colaborando para muito além dos gramados. Os administradores dos clubes de futebol precisam praticar a transparência em todas as negociações, tratar com coragem as situações de conflitos de interesses e enfrentar as pautas de remuneração e incentivos.

Uma agenda genuína no campo social também foi discutida: o poder da educação e formação de atletas, referências para crianças e jovens, o fortalecimento do futebol feminino e das profissionais mulheres no futebol - ainda que com episódios pontuais de retrocesso aqui e ali - empolgaram por seu potencial de impacto. Devemos desenvolver bons cidadãos, cuidar de toda a base de atletas - e não apenas daqueles atuais 2% que seguem com sucesso para uma jornada profissional no futebol, incentivando a jornada de clubes formadores.

Notícias recentes de diálogos de lideranças do futebol com o legislativo brasileiro para a elaboração de políticas públicas e novas exigências de governança aprimorando a Lei das SAFs formam um cenário mais promissor. A cada encontro do Dialoga, a certeza de que o nível da discussão e o perfil dos interlocutores do mundo do futebol é hoje bem mais profissional e consciente.

Se, na maioria das vezes, nem o gol pode esperar, a governança corporativa de ponta nos clubes de futebol pede urgência. E demandará esforço, forte intenção e constância de propósito. Contar com o IBGC nesta jornada é muito especial.


Sobre os autores: Ademilson Monteiro, Alexandre Pinto, Fátima Bana, Jorge Secaf, Juliana Cordeiro, Luiz Henrique de Lima, Luiz Carlos Siciliano, Monica Cordeiro e Thiago Dória integram o IBGC Dialoga Futebol.


Este artigo foi produzido a partir da 7ª edição do IBGC Dialoga, que ocorreu no período de março a junho de 2024. A iniciativa se baseia na formação de grupos, a fim de criar espaços de debate entre pares, trazendo temas da governança corporativa em setores específicos. Nessa última edição, os grupos foram organizados nas temáticas: Agronegócio, Cooperativas, Empresas de Controle Familiar, Futebol, Indústria, Mercado de Capitais, Mudanças Climáticas, Saúde, Setor Financeiro, Tecnologia, Transição Energética e Varejo.

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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