O que falta para o esporte brasileiro avançar

Evento debate como governança e investimento podem transformar o esporte no país

  • 29/10/2026
  • Melina Mayrink
  • Eventos

A governança corporativa pode ser uma importante aliada do desenvolvimento do esporte brasileiro. Mais do que contribuir para uma gestão profissional e transparente das organizações, ela ajuda a fortalecer a confiança de patrocinadores, aprimorar a aplicação de recursos e criar condições para que os investimentos cheguem a quem mais precisa: os atletas. 

O evento “Pacto pelo Esporte: a força da governança para transformar o esporte brasileiro”, realizado nesta quinta-feira (29), na sede do IBGC, reuniu representantes do setor para discutir os avanços da governança esportiva, os desafios para atrair investimentos e a importância de integrar entidades, empresas, atletas e sociedade na transformação do esporte nacional. 

Na abertura, Valeria Café, diretora-geral do instituto, destacou a importância de discutir os princípios da governança corporativa aplicados ao contexto esportivo. A conversa foi moderada por Marina Kim, conselheira do Pacto pelo Esporte, fundadora e consultora da Lis Solutions e CEO da Orere, rede social de apoio ao esporte, atletas e projetos. 

Governança como condição para atrair investimentos 

O Pacto pelo Esporte reúne voluntariamente empresas patrocinadoras do esporte brasileiro em torno do compromisso de fortalecer a governança, aprimorar a gestão e promover a integridade e a transparência nas entidades esportivas. 

Daniela Castro, CEO do Impacta Advocacy e diretora executiva do Pacto pelo Esporte, explicou que a iniciativa nasceu em um contexto de questionamentos sobre a gestão de recursos destinados ao esporte. Como parte significativa do financiamento do esporte olímpico depende de recursos públicos, mecanismos de controle e transparência são fundamentais para assegurar que esses valores sejam bem aplicados. 

A Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998), por meio de seu artigo 18-A, estabelece requisitos para que entidades do sistema nacional do desporto tenham acesso a recursos públicos federais, reforçando a importância de práticas como transparência, prestação de contas e gestão democrática. 

Ao longo dos anos, o Pacto desenvolveu indicadores para avaliar o cumprimento de requisitos de governança pelas organizações esportivas. A proposta, segundo Daniela, vai além de estabelecer critérios: trata-se de estimular uma jornada contínua de desenvolvimento e sensibilizar mais empresas a investir no esporte. 

“É uma jornada de melhoria constante, mas também de chamarmos a atenção das empresas para investir no esporte. Os atletas e empresas se mobilizaram por algo que é básico, que é a governança”, afirmou. 

Para João Pedro Paro Neto, presidente do conselho do Pacto pelo Esporte e ex-presidente da Mastercard para a América do Sul, a transformação depende da colaboração entre diferentes atores. Embora existam empresas comprometidas com a causa, ainda é necessário ampliar o engajamento de quem acompanha e consome o esporte, aproximando a paixão dos torcedores das iniciativas que buscam fortalecer o setor. 

Da gestão das entidades ao desenvolvimento dos atletas 

A aplicação dos princípios de governança tem reflexos que vão além dos processos administrativos. Transparência, integridade e responsabilização contribuem para criar um ambiente de maior confiança, favorecer o patrocínio e melhorar as condições de desenvolvimento dos atletas. 

Hortência Marcari, ex-jogadora de basquete, membro do Hall da Fama do Basquete Mundial e integrante do time de ouro da Rede Globo, compartilhou sua experiência na defesa dos direitos dos atletas e na articulação de leis e regulamentações para o esporte em Brasília. Também ressaltou que o desenvolvimento esportivo deve começar na base, inclusive nas escolas. Para ela, a prática esportiva contribui não apenas para a formação de atletas de alto rendimento, mas também para o desenvolvimento de crianças e jovens capazes de tomar decisões, lidar com frustrações e assumir responsabilidades. 

Na mesma direção, Marina Kim enfatizou que o principal objetivo deve ser garantir que os recursos cheguem onde a transformação acontece: “Nossa maior responsabilidade é fazer com que esse recurso chegue lá na ponta, que é no atleta”. 

A discussão também abordou a necessidade de considerar as particularidades da carreira esportiva, cujo ciclo profissional difere de outras trajetórias. O planejamento de longo prazo e o cuidado com os diferentes públicos envolvidos, incluindo atletas, profissionais, patrocinadores e torcedores, são elementos importantes para uma gestão responsável. 

Programas e indicadores impulsionam a evolução da governança 

Entre as iniciativas que contribuem para esse avanço está o Programa GET (Governança, Ética e Transparência), do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Criado em 2017, o programa passou por uma reformulação em 2026 para fortalecer o desenvolvimento da gestão das confederações olímpicas. 

O novo modelo avalia as entidades com base nos cinco princípios de governança corporativa estabelecidos pelo IBGC: integridade, responsabilização, transparência, sustentabilidade e equidade. A metodologia combina avaliação e capacitação, buscando apoiar as confederações na incorporação de boas práticas à rotina de gestão. O índice também integra os critérios utilizados pelo COB para distribuir recursos provenientes das Loterias às confederações olímpicas.

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