A crescente relevância do ESG nas decisões estratégicas das empresas tem transformado a atuação dos conselhos de administração. Em bate-papo para o blog IBGC, Vanessa Pinsky analisa o atual cenário do tema no ambiente corporativo. Confira abaixo.
BLOG IBGC: Como os conselhos de administração têm trabalhado para integrar critérios ESG nas decisões estratégicas?
Vanessa Pinsky: A pauta ESG está presente nas salas de conselhos, e as discussões evoluíram significativamente desde 2020, especialmente nas empresas que reconhecem a agenda de negócios sustentáveis como fator de competitividade, inovação e criação de valor no longo prazo.
A integração dos pilares ESG nas decisões estratégicas se dá por meio da inclusão de critérios ambientais, sociais e de governança à análise de riscos, decisões de investimento, novos modelos de negócios, compromissos e metas conectadas à estratégia.
Entretanto, essa integração ainda é incipiente em muitas organizações, seja pela baixa priorização ou pela falta de compreensão sobre riscos sistêmicos em ESG. Um exemplo é a interdependência entre negócios e serviços prestados pela natureza, como o ciclo da água, a regulação do clima e o fornecimento de matéria-prima.
A agenda climática e ambiental não é apenas um vetor de risco, mas também de oportunidades. É papel do conselho trazer essa visão para o centro da estratégia corporativa.
Quais são os principais desafios que os conselhos enfrentam na implementação de práticas sustentáveis e éticas?
O primeiro desafio se relaciona com a ética nos negócios: tomar decisões que considerem não apenas o interesse de curto prazo dos acionistas e administradores, mas também o impacto da companhia sobre a sociedade, o meio ambiente e as futuras gerações. A responsabilidade fiduciária do conselho precisa ser ampliada para incluir essa visão sistêmica.
Um dos princípios fundamentais da boa governança corporativa é o dever de diligência, uma das obrigações essenciais de administradores e conselheiros. A tomada de decisão deve ser sempre no melhor interesse da companhia, o que nem sempre está alinhado ao melhor interesse da sociedade em temas socioambientais. E esse é um dilema ético.
Além disso, muitos conselhos ainda têm percepção limitada sobre riscos e oportunidades ESG. Riscos socioambientais frequentemente não entram nos mapas estratégicos, seja por falta de conhecimento técnico ou por “cegueira ética” – quando o impacto é conhecido, mas ignorado no curto prazo. Outro desafio relevante é o equilíbrio entre a pressão por resultados no curto prazo e a necessidade de transformar o modelo de negócios para garantir relevância e perenidade no longo prazo.
A tomada de decisão na agenda ESG requer conselheiros preparados para lidar com temas complexos, que podem ir muito além de atender requisitos legais e de compliance.
Avançar nessa agenda exige conselhos capazes de discutir as externalidades negativas geradas pela operação e de garantir que a companhia seja parte da solução, e não do problema.
De que forma a governança corporativa pode evitar o risco do greenwashing e promover uma abordagem genuína ao ESG?
O greenwashing compromete a confiança e a legitimidade das empresas. A coerência entre discurso e prática deve ser premissa inegociável. O conselho de administração tem o papel de garantir que os compromissos ESG estejam ancorados na estratégia, investimentos e indicadores de performance da companhia.
Para isso, é necessário estruturar políticas, processos e métricas auditáveis por meio de sistemas de monitoramento e de melhoria contínua. Uma governança robusta assegura que os avanços e desafios sejam comunicados com transparência, fortalecendo a confiança do mercado e dos stakeholders.
Para evitar o greenwashing, muitas vezes não intencional, ESG deve ser tratado como eixo estratégico e não como oportunismo em marketing.
Conselhos diversos e bem estruturados contribuem para decisões mais conscientes? Que competências têm se mostrado fundamentais nesse contexto?
Diversidade no conselho é um ativo estratégico. A pluralidade de vozes, origem e experiências amplia a capacidade do colegiado de identificar riscos e avaliar oportunidades em cenários complexos.
O contexto atual, marcado por múltiplas crises interconectadas, exige conselhos ambidestros: capazes de garantir boa governança, compliance e resultados no presente, sem perder de vista a transformação necessária para o futuro em negócios responsáveis e competitivos.
Competências fundamentais incluem visão sistêmica sobre riscos socioambientais, capacidade de avaliar impactos de longo prazo, inovação e habilidades interpessoais como escuta ativa e empatia.
Conselheiros precisam estar preparados para trabalhar com métricas não-financeiras, enfrentar barreiras culturais e compreender o custo da inação — especialmente em temas complexos como mudanças climáticas e direitos humanos. O desafio é conciliar tudo isso com a pressão por resultados de curto prazo, mantendo o foco na criação de valor sustentável e alinhado aos princípios do Capitalismo Consciente.