A governança do futuro é regenerativa

Alinhamento entre ética, inovação e responsabilidade aponta caminhos para um futuro mais justo e sustentável

  • 23/09/2025
  • Gabriela Blanchet
  • Artigo

Com a proximidade da COP 30 e a emergência de questões envolvendo sustentabilidade e clima, uma reflexão deve ganhar força junto às organizações: se as práticas de governança corporativa que vêm sendo discutidas e implementadas ao longo dos anos de fato atendem às novas demandas e desafios econômicos, geopolíticos, sociais, ambientais e climáticos. Eu arrisco dizer que não.

As práticas de governança adotadas hoje ainda refletem uma lógica mecanicista, com processos, comandos e controles rígidos, compartimentados em silos corporativos nos quais cada órgão de governança cumpre seu papel na estrutura organizacional ou no sistema de governança.

E aqui vemos uma necessidade de mudança urgente, com a adoção de uma visão mais holística: as empresas precisam se enxergar como parte importante de um ecossistema maior que envolve não apenas seus clientes, fornecedores e colaboradores, mas também outras empresas, a comunidade, o país e o próprio planeta.

É uma visão que exige uma nova forma de se pensar e discutir a governança corporativa a partir de princípios que incluem ética para afirmação da vida, transparência, interdependência, responsabilização/accountability, equidade, inovação e regeneração/circularidade.

Juntos, eles servem como fundamento para as boas práticas de governança que devem consolidar a abordagem holística e integrada citada acima, criando um sistema vivo, flexível, colaborativo, inovador, regenerativo e que se transforma a todo o momento. Esta é a base do que proponho ser uma governança regenerativa, com uma abordagem que valoriza a interdependência entre os negócios, a sociedade e a natureza, e que busca restaurar, regenerar e fortalecer os ecossistemas dos quais fazemos parte.

Não por acaso, a governança regenerativa está profundamente conectada aos conceitos de empresa e liderança regenerativas, que convida líderes a atuarem com consciência ampliada, empatia, visão de longo prazo e compromisso com o bem comum. Não há que se falar em liderança regenerativa sem que haja um sistema de governança que a permita florescer e gere como resultado uma empresa regenerativa, que se coloca como agente ativo na cura dos sistemas — sociais, ambientais e econômicos — promovendo decisões que geram valor compartilhado e impacto positivo duradouro. Essa nova perspectiva exige que a governança seja não apenas ágil e adaptativa, mas também consciente, inclusiva e restauradora, alinhando propósito, cultura e estratégia com os princípios da regeneração.

Mais que um convite, o conceito exige mudanças profundas na forma de se dirigir e operar os negócios. Entender o conceito é o primeiro passo para o que deve ser uma jornada, especialmente de conselheiros e diretores que, em razão de seu papel estratégico e de seu dever fiduciário, têm a responsabilidade e o poder de decisão para promover transformações significativas rumo a um futuro mais ético, justo e regenerativo.

Na prática, a governança regenerativa amplia a compreensão do papel das organizações dentro dos ecossistemas econômico, social e ambiental. Mais do que simples administradoras de seus interesses, ou dos interesses de seus acionistas, as organizações são chamadas a atuar como agentes ativos de transformação positiva, assumindo a responsabilidade de contribuir para a saúde, a vitalidade e o florescimento dos ecossistemas dos quais fazem parte.

Obviamente, a mudança exige tempo e a transição pode ser desafiadora, mas os benefícios de longo prazo, em termos de resiliência, adaptação, inovação e reputação, são inquestionáveis.

*Gabriela Blanchet é fundadora do Blanchet Advogados, atua em órgãos de governança no IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), no CEBDS (braço do World Business Council for Sustainable Development no Brasil) e lidera o comitê de líderes pelo clima do capítulo brasileiro da iniciativa governança climática fundada pelo Fórum Econômico Mundial (Climate Governance Initiative).
 

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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