Nova edição do curso reuniu especialistas para discutir estratégia, riscos, reputação e responsabilidade no uso da inteligência artificial
Quando falamos de IA e tomada de decisão, existem muito mais perguntas do que respostas. Essa foi uma das principais reflexões durante a nova edição da Imersão IA na Sala do Conselho, realizada nesta quarta-feira (2), na sede do IBGC, em São Paulo. Ao longo de um dia de debates, especialistas discutiram os desafios e as responsabilidades dos conselheiros diante da rápida expansão da inteligência artificial e de seus impactos sobre os negócios e a tomada de decisão.
Para Walkiria Marchetti, presidente executiva MCIO Brasil, se a tecnologia não está presente nas discussões do conselho, esse já é um ponto de atenção. Afinal, a tecnologia é parte do negócio e deve ser considerada, especialmente, sob a perspectiva estratégica.
Essa análise passa, entre outros aspectos, pela maturidade dos dados da organização, pelo nível de exposição regulatória do negócio e pela capacidade interna de implementar tecnologias e absorver seus impactos na operação. Também exige clareza sobre responsabilidades e accountability.
Ao discutir o tema, Dora Kaufman, professora da PUC-SP, destacou que, se a IA é considerada estratégica para a organização, é preciso refletir também sobre os profissionais que estarão envolvidos nessa agenda e sobre as capacidades necessárias para lidar com a transformação.
Não é preciso saber construir IA, mas saber perguntar
Um dos desafios destacados durante a imersão foi a necessidade de ampliar o letramento sobre inteligência artificial entre conselheiros e executivos.
A reflexão também envolve compreender os limites da própria tecnologia. A inteligência artificial não deve ser entendida como uma inteligência equivalente à humana, mas como uma tecnologia baseada, essencialmente, em modelos matemáticos capazes de identificar padrões e gerar respostas probabilísticas.
Nesse contexto, um dos principais desafios é reconhecer também aquilo que ainda não se sabe sobre a tecnologia. Para Silvia Bassi, jornalista e publisher da The Shift, “se você está no conselho, se você está na gestão, você também é um aprendiz. A IA muda todos os dias, os equívocos existem e há um assédio muito grande das empresas de tecnologia para vender uma ideia que, às vezes, é exagerada sobre o que a tecnologia realmente entrega.”
Governança, dever fiduciário e responsabilidade
A velocidade de adoção da IA também amplia os desafios relacionados à governança e à tomada de decisão. Ferramentas já são utilizadas em diferentes níveis das organizações, muitas vezes antes mesmo da definição de critérios, políticas e responsabilidades claras para seu uso.
Nesse cenário, um dos desafios é conectar a grande disponibilidade de informações e a velocidade exigida pelo mercado à responsabilidade necessária para a tomada de decisão. A discussão envolve ainda aspectos regulatórios e os limites para o uso da tecnologia em diferentes alçadas decisórias.
Para Odara Lima, diretora executiva da ESG Advisory e ouvinte do debate, essa realidade precisa ser analisada à luz dos deveres fiduciários dos administradores e dos riscos envolvidos nas decisões.
“Ainda existe um gap muito grande entre a realidade do nível tático e operacional, onde muitas vezes temos times utilizando IA sem critérios bem definidos, e a responsabilidade que permanece com a empresa, independentemente de quem são os colaboradores e de como estão utilizando essas ferramentas.”
A reputação na era da IA
Os impactos da inteligência artificial também alcançam uma dimensão cada vez mais relevante para a governança: a reputação.
Para Renata Cohen, sócia da Schop Consulting, a reputação é construída ao longo do tempo e não deve ser tratada apenas como uma resposta a momentos de crise. “Até hoje, muitas empresas não consideravam a reputação como um assunto estratégico nas mesas de decisão, principalmente dentro dos conselhos e do C-Level. Era uma coisa tratada meio de lado. Hoje, a forma como estamos vivendo requer que esse assunto seja trazido para o centro das mesas de decisão e para o centro das estratégias.”
Diante desse cenário, a construção e o monitoramento da reputação passam a exigir uma visão mais estratégica e integrada das organizações. O desafio envolve não apenas o uso da IA para monitorar informações e gerar dados que contribuam para a tomada de decisão, mas também uma revisão da cultura organizacional e do espaço ocupado pelas áreas de comunicação e reputação nos processos decisórios.
A discussão reforçou que a adoção da inteligência artificial não é apenas uma escolha tecnológica. Para os conselhos, trata-se de uma agenda que atravessa a estratégia e a competitividade dos negócios, a gestão de riscos, a alocação de recursos, a responsabilidade dos administradores e os impactos das decisões sobre diferentes públicos.
Mais do que buscar respostas definitivas para uma tecnologia em constante transformação, o desafio passa por desenvolver a capacidade de fazer melhores perguntas e construir mecanismos de governança capazes de acompanhar a velocidade dessa transformação.