Decidir com dados sem perder o olhar humano

Conselheiro da Vale, patrocinador ouro do 27º Congresso IBGC, explica como a governança ajuda a inovar sem perder consistência nas decisões

  • 17/09/2026
  • Wilfred Bruijn
  • Bate-papo

Em um cenário marcado pelo avanço acelerado da tecnologia, pela crescente presença da inteligência artificial nas decisões e por transformações constantes nos modelos de negócio, a liderança humana segue ocupando um papel central nas organizações.  

Para Wilfred Bruijn, membro do conselho de administração da Vale, patrocinador ouro do 27º congresso IBGC, e Lead Independent Director, inovação e dados são aliados importantes, mas não substituem a sensibilidade, o discernimento e a responsabilidade de quem conduz processos decisórios com visão de longo prazo. 

Nesta entrevista ao Blog IBGC, o executivo reflete sobre os desafios das lideranças diante da transformação, a importância de não terceirizar sentimentos e decisões à tecnologia e o papel das práticas de governança para dar consistência, segurança e equilíbrio às escolhas estratégicas das organizações. 


BLOG IBGC: O tema do 27º Congresso IBGC é "O ser humano na liderança da transformação". Na sua visão, qual é o maior desafio das lideranças para equilibrar tecnologia, inovação e o fator humano nas decisões?  

Wilfred Bruijn: Talvez o maior desafio seja sempre lembrar que somos humanos, e que as nossas decisões (certas ou erradas), nos trouxeram até onde estamos hoje. A evolução tecnológica, bem como a necessidade de inovarmos são caminhos necessários para que possamos aprimorar rotas, e redefinir as estratégias. Olhar para trás, um ano, cinco anos, dez anos, cinquenta anos, nos faz perceber como a coletividade humana foi criativa. E continuará sendo para os principais desafios que ela encontrará batendo em sua porta diariamente.

Evoluir é importante, é necessário e faz bem. Para nossas vidas pessoais e para as empresas. Uma liderança humanizada, terá a sensibilidade para perceber isso, e junto com a competência dos times implantará novas tecnologias para trazer mais produtividade, segurança e competitividade aos processos. Inovar é trazer melhoria para algo que já está bom, mas que pode melhorar ainda mais. O fator humano contribui e muito para este equilíbrio! 


Estamos vendo que decisões são cada vez mais orientadas por dados e inteligência artificial. O que continua sendo insubstituível na liderança humana na sua avaliação e que se conecta ao trabalho na sua organização hoje?  

Inegável que IA e dados vieram para nos ajudar muito. Ganhamos tempo na garimpagem e na análise de informações cruciais para a melhoria do nosso trabalho. Ainda estamos, contudo, em um momento em que uma resposta vinda de IA precisa ser validada por humanos, para que não passemos a confiar cegamente em algo que nos responde baseado em inputs. A liderança humana saberá avaliar se o que os dados estão nos mostrando nos levará para um caminho assertivo, ou talvez ainda não tanto.

Certa vez li um texto no LinkedIn de alguém que estava comemorando 15 anos de empresa, que se orgulhava daquele feito e optou por compartilhar na sua rede. Elogiei o texto e curti. Dias depois encontrei a pessoa, e mencionei o quão bonito tinha sido o texto postado, e como me tocou. Disse-me para minha surpresa: "não escrevi uma só linha, foi tudo IA". Não devemos terceirizar sentimentos, e nem decisões. O que vem de dentro de nós, e movido pelas nossas convicções, sempre terá um grande e diferenciado valor. Mesmo em tempo de crescente participação de IA e dados. 


Que práticas de governança você considera essenciais para que as organizações consigam se transformar sem perder consistência nas decisões?  

As organizações estão em processo contínuo de transformação, sempre na busca por melhorias, por nichos de competitividade, por segurança etc. Isso leva a situações quase que diárias de tomada de decisão. Qual caminho tomamos? Como ajustamos nossas estratégias? Como deixamos nossos acionistas satisfeitos? Um conjunto maduro de práticas de governança são vitais para que estas decisões possam ser tomadas, como o maior nível de segurança possível. Evitando que não se percebam riscos significativos, analisando as decisões envolvendo várias camadas na empresa (time executivo, comitês de conselho e o próprio conselho). Abordar as perguntas pertinentes para assegurar que cada decisão ou mudança de rota tenha sido devidamente avaliado, checado, e dissecado por todos os envolvidos no processo de governança. Assegurando assim, a evolução da empresa, mantida a consistência de sua rota estratégica e operando em um ambiente com um nível de risco bem controlado. 


Que tipo de debate considera indispensável para quem atua com governança hoje?  

Em tempos de grande transformação tecnológica, movimentos geopolíticos bruscos e inesperados, instabilidade dos mercados de energia, e mega investimentos em IA, creio que diversos temas precisam estar cada vez mais presentes para manter uma boa governança como guardião do processo decisório de uma empresa de sucesso. Uma relação de confiança, e construção conjunta entre os executivos e o conselho de administração, é fundamental. Isso trará uma troca saudável entre uma proposição de rota estratégica e movimentos desejados para a competitividade da empresa.

O conselho que trabalha com comitês para assessorar o colegiado como um todo, terá a oportunidade de analisar, compreender e orientar sobre os temas que são trazidos pelo corpo executivo. Fundamental que os comitês avaliem os riscos de cada proposta, a aderência de alocação de capital, os aspectos humanos e a inserção na agenda tão relevante de sustentabilidade. A combinação destes debates fortalecerá a tomada decisão, e dará a segurança ao time executivo de que diversos olhares contribuíram para o necessário apoio das rotas sugeridas. 


*Este texto foi produzido pela Vale, patrocinador ouro do 27° Congresso IBGC. Seu conteúdo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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