A intensa aceleração tecnológica, somada ao uso crescente de dados e inteligência artificial e à complexidade cada vez maior das decisões, reforça a responsabilidade das lideranças de conduzir transformações sem perder de vista seus impactos humanos, éticos e reputacionais.
Essa reflexão está no centro do tema do 27º Congresso IBGC e orienta a conversa com Ricardo Wagner de Araújo, diretor de Governança e Conformidade da Petrobras, patrocinadora ouro do evento. Em entrevista ao Blog IBGC, o executivo discute como combinar inovação, julgamento humano e valores éticos, além de destacar o papel de estruturas sólidas de governança para dar direção às mudanças, fortalecer a confiança e manter as decisões coerentes com o propósito organizacional.
BLOG IBGC: O tema do 27º Congresso IBGC é "O ser humano na liderança da transformação". Na sua visão, qual é o maior desafio das lideranças para equilibrar tecnologia, inovação e o fator humano nas decisões?
Ricardo Wagner de Araújo: Acredito que o maior desafio seja aproveitar todo o potencial tecnológico sem perder de vista os aspectos humanos e éticos envolvidos. Hoje temos muito mais dados e capacidade analítica do que em qualquer outro momento da história, mas, as decisões mais importantes continuam exigindo julgamento, valores e diligência, aspectos que não podem ser terceirizados à tecnologia. A tecnologia nos ajuda a entender melhor os problemas e simular cenários, mas não cabe a ela definir o que é aceitável do ponto de vista ético, nem fazer escolhas em que há impactos humanos relevantes. Liderar a transformação, a meu ver, significa, justamente, fazer a conexão entre inovação e propósito. Quanto mais avançam as ferramentas, mais relevante se torna a capacidade das lideranças de fazer perguntas difíceis, avaliar consequências e considerar os impactos de longo prazo de suas decisões. Na Petrobras, buscamos reforçar a cultura de decisões técnicas, baseadas na tecnologia, mas que sejam também íntegras e avaliadas sob a ótica do impacto que geram nas pessoas, dentro e fora da companhia.
Estamos vendo que decisões são cada vez mais orientadas por dados e inteligência artificial. O que continua sendo insubstituível na liderança humana na sua avaliação e que se conecta ao trabalho na sua organização hoje?
O que permanece insubstituível é a capacidade humana de exercer julgamento diante de situações complexas e muitas vezes ambíguas, reconhecer dilemas e tomar decisões responsáveis quando métricas entram em conflito. Dados e inteligência artificial ajudam a identificar tendências e ampliam evidências para a tomada de decisão, mas não devem definir prioridades quando interesses legítimos precisam ser conciliados ou quando o custo humano e reputacional está em jogo. A liderança humana, em sua dimensão relacional - construção da confiança e da cultura e promoção do diálogo - continua essencial para construir consensos, inspirar pessoas e tomar decisões que vão além dos indicadores disponíveis. Na prática, isso se traduz em procurar avaliar decisões relevantes não só por desempenho e eficiência, mas também pela aderência a valores e compromissos de integridade. Sem isso, o risco é ter decisões aparentemente otimizadas e, ainda assim, equivocadas sob a ótica de sustentabilidade da companhia.
Que práticas de governança você considera essenciais para que as organizações consigam se transformar sem perder consistência nas decisões?
Considero essencial que os processos de transformação estejam apoiados por uma estrutura de governança sólida. Para isso, é fundamental que existam princípios claros que permaneçam estáveis mesmo quando os contextos mudam. Estruturas de decisão bem definidas, gestão de riscos, controles proporcionais, prestação de contas e transparência continuam sendo elementos essenciais. Mas, acima de tudo, a organização precisa ter clareza sobre seus valores. Processos podem evoluir, estratégias podem ser ajustadas e tecnologias podem mudar rapidamente. O que precisa permanecer constante é a coerência entre o propósito da organização e as escolhas realizadas ao longo do tempo. Quando essa coerência existe, a transformação deixa de ser um evento e passa a fazer parte da cultura organizacional: as mudanças acontecem com velocidade, mas não sem rumo.
Que tipo de debate considera indispensável para quem atua com governança hoje?
Entendo que um dos debates mais relevantes para quem atua com governança hoje é justamente o papel do tomador de decisão em um ambiente de aceleração tecnológica e aumento de complexidade. Isso envolve discutir não só oportunidades, mas limites: como usar a inteligência artificial de forma responsável, como proteger melhor dados e privacidade, como fortalecer a segurança cibernética e como tratar vieses e dilemas éticos de forma estruturada. Além disso, permanece fundamental aprofundar mecanismos de integridade, transparência e construção de confiança das partes interessadas. Nesse cenário, governança não deve ser vista como “freio” da mudança, mas como o que dá direção, qualidade e responsabilidade à transformação.
*Este texto foi produzido pela Petrobras, patrocinadora ouro do 27° Congresso IBGC. Seu conteúdo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.