Bioeconomia e governança corporativa: uma pauta estratégica para conselhos

Artigo reflete sobre o papel dos conselheiros na transição para modelos de negócios regenerativos

  • 20/05/2025
  • Vanessa Pinsky
  • Artigo

O Brasil é o país mais biodiverso do planeta, tanto em número de espécies conhecidas quanto em ecossistemas. A biodiversidade é um ativo natural e estratégico, considerando sua interdependência com os serviços ecossistêmicos essenciais, que geram valor para a economia, a inovação, a saúde, a segurança alimentar e as ações de mitigação e adaptação climática.

Bioeconomia é uma abordagem em evolução, presente em diferentes setores: desde a produção de commodities (agronegócio e biotecnologia) e produtos de base florestal (manejo intensivo de espécies e recuperação de áreas degradadas), até cadeias produtivas da sociobiodiversidade com sistemas integrados de produção, beneficiamento e comercialização com participação de comunidades locais.

A Estratégia Nacional de Bioeconomia, instituída por decreto presidencial em 2024, define bioeconomia como um modelo de desenvolvimento produtivo e econômico baseado na justiça, na ética e na inclusão, com foco no uso sustentável dos recursos naturais, na regeneração e conservação da biodiversidade e na valorização de conhecimentos científicos e tradicionais.

Bioeconomia Amazônica

Fomentar uma bioeconomia inclusiva na Amazônia demanda políticas públicas estruturantes e estratégias de negócios que coloquem a conservação ambiental, a geração de emprego e renda e o bem-estar das comunidades no centro da tomada de decisão. São pilares que criam as bases socioeconômicas para manter a floresta em pé e combater o avanço do crime organizado.

Essa abordagem requer o envolvimento de atores públicos e privados na co-criação de soluções, que muitas vezes não estão prontas, em áreas como agricultura regenerativa, restauração de áreas degradas, extrativismo e produção florestal sustentáveis. Tudo ancorado por uma repartição justa de benefícios, respeito à diversidade sociocultural e valorização dos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Por que isso importa?

O modelo de crescimento econômico infinito em um planeta com recursos naturais finitos não se sustenta. Crises sistêmicas, como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, impõem limites à competitividade das empresas.

Tampouco é viável crescer às custas da desigualdade, da exclusão social e da não responsabilização pelas externalidades negativas geradas pelas empresas. A prosperidade da sociedade é uma condição para operar de forma legítima e duradoura nos territórios.

Por outro lado, o Brasil abriga uma riqueza de modelos de negócios sustentáveis baseados na sociobiodiversidade que ainda são pouco conhecidos ou explorados pelo setor empresarial. O potencial de geração de valor é significativo em áreas como bioeconomia circular, crédito de carbono, alimentação, biofármacos, cosméticos, químicos de base biológica, ecoturismo e concessões de parques e reservas.

Governança corporativa na bioeconomia

Segundo o IBGC, a sustentabilidade é um dos cinco princípios da boa governança corporativa. Isso exige conselhos com visão sistêmica sobre a interdependência entre empresas e os ecossistemas social, ambiental e econômico, fortalecendo o papel estratégico da governança perante a sociedade.

Governança e negócios na bioeconomia são sistemicamente conectados, pois lidam com a necessidade de redesenhar modelos de negócios e processos produtivos com foco em novas oportunidades, competitividade e resiliência, alinhando sustentabilidade com estratégia de longo prazo.

É também preparar a empresa para competir na economia regenerativa, circular e de baixo carbono. Conselhos que não incluírem essa agenda correm o risco de perder relevância de mercado e legitimidade social no médio e longo prazo.

Bioeconomia na pauta dos conselhos

A bioeconomia deve ser pauta recorrente nos conselhos de empresas que atuam em cadeias de valor ligadas à sociobiodiversidade ou inseridas em territórios de alta biodiversidade.

As externalidades socioambientais negativas precisam estar refletidas no mapa de riscos corporativos. É papel do conselheiro provocar debates sobre como a inovação para sustentabilidade pode gerar novos negócios, alinhando a estratégia corporativa a metas ESG e até posicionar a empresa como protagonista da bioeconomia inclusiva no Brasil.

Conselheiros têm papel decisivo na condução de negócios de impacto positivo. É preciso avaliar a viabilidade de novos modelos com uma visão integrada da conservação ambiental, capacitação técnica de populações locais e investimento em ciência, tecnologia e inovação e do uso sustentável da biodiversidade como fator de competitividade.

Ao compreender o potencial transformador da bioeconomia, agentes de governança podem impulsionar negócios regenerativos que geram valor compartilhado a partir da conservação da natureza e da criação de oportunidades econômicas. Mais do que uma tendência, trata-se de uma abordagem estratégica para promover mudanças sistêmicas nos territórios — onde lucro, competitividade e propósito caminham juntos.

Vanessa Pinsky é conselheira e especialista em sustentabilidade. Membro da Comissão Sustentabilidade e Clima do IBGC. Consultora, professora em escolas de negócios e pesquisadora em governança e bioeconomia. Doutorado e pós-doutorado em administração na FEAUSP.

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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